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Polícia Federal evita tratar oxi como novidade para não fazer propaganda da droga

Polícia Federal evita tratar oxi como novidade para não fazer propaganda da droga
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Enquanto as apreensões de óxi se espalham pelo Brasil, a Polícia Federal evita tratar a droga como novidade, ainda que na receita do entorpecente constem ingredientes diferentes dos encontrados no crack.

No campo científico, peritos da PF afirmam que as pesquisas feitas com amostras de óxi apreendidas nas ruas de Rio Branco, no Acre, por onde a droga entrou no país, não apresentaram elementos suficientes para caracterizá-la como diferente do crack, do merla ou da pasta base da folha de coca.

“O óxi é um derivado da cocaína, assim como o crack. Não é uma droga nova, é a mesma cocaína apresentada de outra forma”, afirma Oslain Santana, coordenador da repressão a entorpecentes da Polícia Federal.

Peritos da PF iniciaram nessa terça-feira (17), pela primeira vez, uma série de análises detalhadas de exemplares de óxi. As pesquisas devem terminar no final deste mês. Ao final dos testes, os peritos apresentarão uma conclusão técnica se o óxi pode ou não ser considerado uma droga nova.

A pasta base da folha de coca, obtida nos países andinos (Bolívia, Peru, Colômbia e Equador), é a matriz da cocaína em pó (cloridrato), crack, merla e também do óxi. A pasta é obtida a partir da mistura da planta triturada com componentes tóxicos, como ácido sulfúrico, cal, cimento, entre outros componentes tóxicos.
No óxi, a pasta base é misturada com algum combustível -querosene, gasolina ou água de bateria (ácido sulfúrico) e cal virgem, componentes corrosivos e extremamente danosos ao organismo-, enquanto que no crack aplica-se bicarbonato de sódio e amoníaco ou éter, componentes mais caros do que os usados no óxi.

A perícia diz que os mesmos produtos que podem ser aplicados na transformação da pasta base em óxi já são utilizados no processo anterior, de obtenção da pasta a partir da folha de coca. Dessa maneira, os peritos apontam que há muitas semelhanças entre o óxi e a pasta base, o que desbancaria a tese do óxi como droga nova. Santana afirma  que os danos e efeitos do óxi no organismo do usuário não diferem muito dos causados pelo crack e que não há estudos comprovando que o óxi é mais devastador.

No entanto, de acordo com o psiquiatra Dr.Pablo Roig, diretor da clínica Greenwood, especializada em dependência química, o óxi é mais letal que o crack por duas razões. Primeiro, por conta dos componentes adicionais –cal e combustível. Além disso, em razão da quantidade do princípio ativo da cocaína, que no óxi é de 60% do composto, um pouco superior ao encontrado no crack.

Além disso, segundo ele, a maioria dos usuários de óxi intercala as inaladas com doses de álcool para controlar a sensação de abstinência causada pela droga, o que ataca o fígado e o sistema digestivo, fazendo com que os usuários tenham diarreia e vômito. Muitos usuários de óxi apresentam aparência amarela por conta dos efeitos da droga no fígado.

“O álcool com a substância da cocaína forma o cocaetileno, que pode provocar esteatose hepática (gordura no fígado) e cirrose. O cocaetileno também é tóxico para o miocárdio, o que pode também provocar morte súbita”, afirma Roig.

Em 13 Estados e no DF

Até o final de abril, havia registros de ocorrência do óxi em 10 Estados –Acre, Amazonas, Pará, Amapá, Rondônia, Goiás, Pernambuco, Mato Grosso do Sul , Piauí, São Paulo– e no Distrito Federal. Nas últimas duas semanas, a droga se espalhou para Paraná, Bahia e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, até o início do mês não havia ocorrido apreensões de óxi. De lá para cá, foram pelo menos cinco, a maior delas na segunda-feira (16), quando 5.000 pedras de óxi foram encontradas na favela de Heliópolis, na zona sul da capital.

De acordo com Santana, a PF não pretende colocar em prática operações específicas de combate ao óxi, que entra pelo Brasil a partir das fronteiras com Peru, Bolívia e Paraguai. “Não tem como você planejar uma operação específica. Manteremos uma atuação de fiscalização nos postos de fronteira e continuaremos com um trabalho ostensivo em toda a fronteira”, disse.

Ele afirma que a PF prioriza suas ações contra o tráfico atacadista, o que, segundo ele, traz resultados mais eficientes, e que cabe às polícias civis a repressão ao tráfico no varejo, forma predominante na distribuição do óxi.

O Ministério da Justiça e a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) ainda não se posicionaram oficialmente sobre o óxi, nem têm previstas ações ou campanhas contra a droga. O Ministério da Saúde não tem dados sobre internações de usuários de óxi no SUS (Sistema Único de Saúde) ou nas unidades do Caps (Centros de Atenção Psicossocial).

Para o jurista e professor Walter Maierovitch, o Estado brasileiro está demorando para agir contra o óxi. “Na Europa, assim que surge uma droga, eles acendem um sinal de emergência e se mobilizam para impedir a expansão. No Brasil, estão esperando o óxi sair do controle para levantar o sinal de emergência. Está na hora de acender a luz, traçar políticas nos três níveis de governo para conter o avanço da droga”, aponta.