Blog Clínica Greenwood

O submundo das drogas VEJA

O submundo das drogas VEJA
Comentários desativados em O submundo das drogas VEJA

Em matéria publicada na Revista Veja por André Mattos, um dos especialistas da Clínica Greenwood, psiquiatra Pablo Roig fala sobre os números alarmantes sobre drogas como a constatação que o uso de crack aumentou em 60%. Abaixo a reportagem na íntegra.

O submundo das drogas

Nunca antes em toda a história uma substância química se proliferou com tanta velocidade quanto nos dias atuais. “Há dez anos 200.000 brasileiros haviam tido contato com o crack, em uma década esse número saltou para 800.000.” diz o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, da UNIFESP, um dos maiores especialistas do país no assunto.

O crack derrubou as barreiras de classes sociais e invadiu assustadoramente a classe C, hoje 91% dos municípios brasileiros já tem viciados em crack. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Políticas Públicas, do álcool e drogas, realizada em dezembro de 2011, traçou um perfil da população da cracolândia em São Paulo e descobriu que do total de 178 ocupantes, 17 tinham curso superior completo – 24 jovens estavam matriculados em faculdades – 2 deles em curso de medicina.

Os números são ainda mais alarmantes quando se tem um raio-x da situação, nos últimos cinco anos, o número de viciados em crack subiu 60%, diz o psiquiatra Pablo Roig, proprietário da Clínica Greenwood em Itapecirica da Serra – SP. Estima-se que 40% das pessoas que usam cocaína no Brasil já fumaram crack, muitas delas nem pensavam em entrar neste submundo, mas estimuladas por amigos ou porque o traficante que fornecia a droga estava sem o pó para vender, decidiram experimentar as pequenas pelotas de cor amarelada queimadas em cachimbos improvisados. E esse número tende a crescer, afirma o psiquiatra Laranjeira.

O crack vicia em tamanha proporção e velocidade devido ao seu poder de provocar uma falsa sensação de bem estar, ele faz aumentar em 900% a dopamina do cérebro, o neuro transmissor que regula a sensação, assim, bastam algumas experiências com a droga para que o mecanismo cerebral responsável pelo sistema de recompensa passe a registrá-la como fonte mais intensa de prazer.

A partir da primeira tragada marca-se o começo do fim para quem entra nesse submundo. Em 3 anos, quase toda a totalidade dos viciados estará gravemente doente, terá se envolvido em crimes e visto a família se desmantelar. Ao fim de cinco anos um terço deles estarão mortos; as vítimas de homicídios e overdose são as mais frequentes.

A droga é produzida da pasta de coca, matéria-prima que pode se transformar também em cocaína, mas enquanto o crack faz aumentar em 900% a sensação de prazer, a cocaína aumenta em apenas 230%, motivo pelo qual o vício se prolifera com tamanha velocidade.

Imagem do submundo das drogas do filme TrainspottingPara os traficantes, o crack apresenta mais vantagens devido a quantidade e a velocidade com que é consumido. Hoje uma clínica especializada em tratamento de dependentes químicos, com acompanhamento médico e psicológico em tempo integral, custa até 23.000 reais por mês, mesmo assim, 90% dos que fazem tratamentos sofrem recaídas nos oito primeiros meses. Metade desiste durante o tratamento e volta de vez para as pedras. Dos que persistem e passam até um ano em tratamento, 90% conseguem voltar a estudar e trabalhar ainda que, em grande parte das vezes nunca consigam se livrar de recaídas eventuais.

A consultora de beleza P. F. de 31 anos, conta que aos 14 anos começou a fumar maconha, depois cocaína e aos 28 anos conheceu o crack, depois de duas internações e cinco meses sem usar nada, teve uma recaída, “fumei cinquenta pedras de crack em 24 horas.” Por causa do filho de 9 anos decidiu ir para uma terceira internação, hoje lamenta: “por causa da droga não conseguir fazer faculdade, agora preciso cuidar mais do meu filho.”

O administrador F. P. N. de 44 anos, passou por 25 internações, morou 6 anos na rua chegando a pesar 40 quilos. Conheceu o crack aos 27 anos e veio a se tornar mendigo, tendo que pedir dinheiro nos semáforos para sustentar o vício. Quando conseguiu parar em 2003, passou dois anos tomando remédios para controlar a ansiedade, recuperar a memória e a capacidade de raciocínio, 3 vezes por semana ia ao psicólogo e ao psiquiatra mensalmente, “o crack destrói a capacidade de planejar.” diz.

Em Barreiras, no Oeste da Bahia, o uso do crack não está tão disseminado quanto na capital baiana, Salvador, onde o consumo aumentou 140%. Em Brasília (DF) com aumento de apreensão de pedras de crack em 175% em apenas um ano; e Goiânia (GO), onde existem 50 mil usuários, cerca de 4% da população. Segundo o Dr. Jorge Aragão, são através dessas cidades que a droga chega até Barreiras, entretanto, ainda não existe indícios de que haja pessoas ricas ou autoridades envolvidas no tráfico. “Em Barreiras, o que existe são traficantes que vendem nos seus setores, em pontos de bairros, mas nenhum que possa abastecer a cidade inteira. Apesar de o lucro ser bastante alto, não temos informações de que exista um grande ‘barão do crack’ na cidade”.

Como essa é uma droga barata, maior é o consumo, principalmente por usuários de baixa renda, segundo o delegado, os de classe média alta ainda estão usando cocaína e maconha. “O crack aqui em Barreiras continua sendo uma droga consumida por usuários de baixa renda. Temos feito “batidas” principalmente nos bairros periféricos como: Vila Rica, Santo Antônio, Vila Amorim, Santa Luzia, Sombra da Tarde, Vila Nova, Vila Brasil, bairros cuja situação nos deixa mais preocupados”.

Na tentativa de abolir o crack, a polícia Civil tem trabalhado em operações semanais, na maioria das vezes, com registro de flagrantes e como consequência, a prisão dos traficantes.

Fontes de pesquisas: Jornal Nova Fronteira / Revista Veja