Acompanhamento Terapêutico

Acompanhamento Terapêutico

O Acompanhante Terapêutico (AT) é um profissional habilitado em Saúde Mental, que participa de forma sistematizada das discussões de caso e supervisões clínicas, como um membro interativo na equipe multidisciplinar.

De acordo com MAUER e RESNIZKY, o AT assiste o paciente em crise e pode fazê-lo segundo a fase de diagnóstico e/ou através de todo o processo terapêutico. Seu trabalho não pode cumprir-se de forma isolada. Este está sempre inscrito no seio de uma equipe. É a pertinência a ela, a identificação com o esquema referencial e as pautas de trabalho que dela emanam que permitirão perfilar seu papel com clareza.

Sendo assim, o AT é uma ferramenta importante no cumprimento da estratégia no espaço extra-institucional.

As possíveis origens de encaminhamento são a internação, hospital-dia ou ambulatório, que dependerá da avaliação diagnóstica inicial, baseada no esquema conceitual da Espiral da Dependência.

Na internação, observou-se através da prática clínica, que o mais indicado, produtivo e eficaz é o AT ingressar no caso a partir do momento que o paciente atinge a etapa evolutiva do Grupo 1, devido às características assimiladas e desenvolvidas em termos comportamentais, o que significa que o paciente está apresentando um vínculo de maior estabilidade e confiança no tratamento e passou a reconhecer sua patologia e conseqüências. Estruturalmente, encontra-se mais apto para gradualmente enfrentar a realidade deixada no mundo exterior à internação, tendendo a refletir mais e atuar menos. Em algumas circunstâncias o AT é requisitado para trabalhar estrategicamente dentro da instituição.

Compreende-se que a patologia impôs um estado de isolamento social e a internação foi necessária para quebrar o vínculo simbiótico entre paciente e a droga. MAUER e RESNIZKY afirmam que a missão do acompanhante terapêutico encontra sua origem numa concepção psiquiátrica dinâmica oposta à prática clássica que confina o enfermo mental com o rótulo de louco, afastando-o de sua família e da comunidade. O acompanhante terapêutico, como agente da saúde, se inscreve na corrente que busca restituir a possibilidade de diálogo com o irracional..

Como integrantes da equipe terapêutica da Greenwood, concebemos que esta é a missão também da instituição, que visa, através de seu modelo de tratamento, tornar possível a inclusão social do paciente, que até então, constituiu-se como autor e vítima de sua marginalização.
O primeiro passo do acompanhamento terapêutico é o estabelecimento de contrato com a família e o paciente. A partir deste momento, iniciam-se as saídas, que geralmente ocorrem aos finais de semana. O processo de ressocialização implicará numa reaproximação gradativa do paciente ao seu ambiente sócio-familiar. Para uma realização satisfatória destas tarefas, as primeiras saídas são destinadas para a formação do vínculo. Normalmente, estas saídas ocorrem próximas ao local da internação.

Dentre os grupos terapêuticos, há um específico que auxilia o paciente a elaborar sua programação de saída, as quais são discutidas em equipe, que irá analisar a coerência e a viabilidade dos pedidos, assim como o cumprimento de metas estabelecidas pelo tratamento. O respaldo do grupo de programação encontra-se no objetivo terapêutico de desenvolver a capacidade de planejamento e organização.

Sucessivamente, ocorrem os trabalhos de limpeza e percurso, de fundamental importância para a reabilitação do paciente.

A limpeza é um procedimento que visa limpar, no sentido estrito da palavra, o quarto ou qualquer outro local utilizado para o consumo da droga, retirando-se todos os vestígios e objetos que estiverem relacionados, de forma direta ou indireta, ao uso e ao comportamento de “ativa” .

No que se refere ao percurso, trata-se de uma etapa, na qual se realiza o trajeto percorrido pelo paciente durante sua época de ativa. Primeiramente, com o apoio da equipe, o paciente elabora um mapa sinalizando os locais percorridos para compra e uso da droga. Este instrumento é apresentado e discutido em grupo, com o objetivo de auxiliar no entendimento do trabalho. Na maioria das vezes, o trajeto abrange as imediações da própria casa, escola ou trabalho, podendo se estender a bares, clubes, construções inacabadas e até mesmo locais de compra. Visando garantir a segurança do paciente e profissional neste procedimento, averigua-se a possibilidade de envolvimento em delitos, dívidas com narcotráfico, entre outros, considerando que o comportamento do drogadicto está associado a situações de risco.

Além do aspecto concreto do trabalho de limpeza e percurso, estes procedimentos possuem um caráter terapêutico, à medida que colocam o paciente em contato com a sua história e rituais de uso. Neste momento é possível observar in loco quais sensações emergem, como está o vínculo com a droga e a forma como ele lida com estes sentimentos. O fundamento é propiciar ao paciente a compreensão do uso inadequado destes espaços e possibilitar a re-apropriação dos mesmos de uma forma “limpa”, saudável e responsável.

Concluída esta etapa do trabalho, iniciam-se as saídas de ressocialização. Para ilustrar esta fase do acompanhamento, citaremos o seguinte trecho: … Consideramos que o ‘acompanhar’, o ‘estar com’ o paciente nos mais variados espaços sociais – a casa, a rua, o cinema, a festa, o parque,… – é uma modalidade de intervenção psicoterapêutica. Ou seja, o que realizamos são ‘saídas’, com o objetivo de criar junto com o paciente múltiplas formas de ser/estar no social, formas estas que possibilitem não só sair de casa, do hospital, da clínica, mas que possam servir de ensaios para a saída do circulo doença-sofrimento..

Outro aspecto do trabalho nesta fase é a re-inserção do paciente na sua família. Este momento é de re-adequação dos membros no ambiente familiar. O acompanhante terapêutico observa as interações comunicacionais e auxilia o paciente a retomar seu lugar neste espaço, ajudando-o a enfrentar situações de desconfiança e rejeição, comuns neste momento.

A evolução do paciente culminará na sua passagem para o Hospital-Dia e é nesta etapa que se inicia a retomada efetiva do convívio social, intensificando-se as atividades de ressocialização. Neste contexto o paciente começa a enfrentar as dificuldades do seu isolamento social, conscientizando-se de como sua vida ficou paralisada em termos de trabalho, estudo, amigos e relacionamentos afetivos. O AT será uma ferramenta que irá auxiliar o paciente na adaptação e concretização de seus projetos.

Ao ingressar no Ambulatório, o vínculo entre o AT e paciente é mantido em caráter de apoio, ocorrendo à gradativa diminuição da freqüência, até o momento em que se finaliza o trabalho.